
Os números do primeiro semestre de 2026 são, à primeira vista, contraditórios: as maiores redes imobiliárias a operar em Portugal venderam menos casas do que no período homólogo e faturaram mais. Escassez de oferta, preços mais altos, maior peso de compradores estrangeiros e institucionais. É isso que está por trás dos resultados.
Para o consultor médio, esta notícia passa. Para o consultor que trabalha bem, há aqui uma leitura que vale a pena fazer.
A lógica mais imediata é: menos casas disponíveis significa menos oportunidades. E é parcialmente verdade. Quem depende de volume, de fechar muitas transacções pequenas para chegar ao fim do mês, vai sentir este mercado como um apertado.
Mas o que os resultados mostram é outra coisa: o valor médio por transacção subiu. Isso significa que quem conseguiu angariar bem, nos sítios certos, com a qualidade certa, fechou o semestre em alta. A escassez de oferta não afectou todos da mesma forma.
Imagina dois consultores. Um trabalha com carteira dispersa, imóveis de valor médio-baixo, sem exclusividade. Outro tem menos imóveis em carteira, mas angariados com rigor, nos segmentos onde a procura bate mais forte. No mesmo mercado, com o mesmo número de meses, as trajectórias divergem.
O maior peso de compradores estrangeiros e institucionais não é um pormenor cosmético. Muda o processo de venda inteiro.
Este tipo de comprador compara mais, desloca-se menos vezes, exige documentação organizada desde o primeiro contacto e decide com base em critérios que nem sempre são os que o proprietário português típico antecipa. Língua, clareza da informação, tempo de resposta, fiabilidade do interlocutor: tudo isso pesa mais do que a vista da janela.
O consultor que não tem esse perfil de trabalho, que ainda funciona em modo reactivo, a responder a pedidos mas sem antecipar o que o comprador vai perguntar, perde negócios que nunca saberá que perdeu. O comprador simplesmente não volta.
Isto não é uma conclusão minha. Está nos números: as redes faturaram mais com menos transacções. A única forma de isso acontecer é se o valor médio de cada negócio subiu, ou se os profissionais que fecharam negócios são os que operam nos segmentos de valor mais alto.
O consultor médio está num mercado de volume. O consultor acima da média está num mercado de valor. São dois mercados que coexistem no mesmo país, às vezes na mesma cidade, às vezes no mesmo bairro. A diferença não está no mercado, está no posicionamento.
No primeiro semestre de 2026, quem estava bem posicionado não sentiu a escassez de oferta como travão. Sentiu-a como vantagem: menos concorrência por cada angariação de qualidade, proprietário mais receptivo a trabalhar com quem transmite confiança.
Não há aqui uma lista de acções a seguir. Mas há uma pergunta que vale a pena fazer: a tua carteira actual está posicionada para o mercado que existe, ou para o mercado que existia há dois ou três anos?
A escassez de oferta, os preços mais altos, o peso crescente do comprador internacional: estas não são tendências. Já estão a acontecer. A questão é se o teu trabalho do dia-a-dia já reflecte isso.
Espero que o artigo tenha sido útil. Estou cá para o que precisares e em 30 minutos discutimos a tua situação.
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